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Delito

 Vivo mil anos a tua cara e nela tenho gravada o teu grito Sou pedra rochedo o teu segredo sou regra credo e o teu medo Fixei o instante da tua angústia nesta prisão de pedra Sou a estátua da perfeição que a lei de tudo quebra e agora em todo o lado existo feita de crime e delito O meu maior foi ter-te a ti  Aqui onde estou sou perigo Sou perigo. 

Um Avião

Marquei uma cruz no céu Com um avião Era cinzento e parecia Um Cristo a querer abraçar a Terra. Dispus assim Acima de mim Uma fórmula Que fosse fácil de acreditar. 

Reportagem

Russel Square magoou a perna e gritava "Eu sou Russel Square! Eu sou Russel Square!" enquanto o levavam numa maca feita de braços, quase em apoteose. Perdoavam-no tudo, era um herói. Ditava modas, Russel Square era o nome dele e tinha-se magoado na perna. Levavam-no em braços, gentil e dolorosamente, os jovens e as jovens pela rua abaixo até ao buraco que dava para as instalações deles, escondidas mesmo debaixo da minha rua. Lá havia espaço, naquela gruta virgem feita ainda de planeta selvagem que existe debaixo das nossas cidades. Russel Square parecia ditar novas regras. Alguém discordava e Russel Square, com o olhar, mostrava-lhe onde era a saída daquele abrigo subterrâneo. Não sei descrever muito bem a aparência de Russel Square, era jovem, lá isso era, vinte e poucos, e os outros seguiam-no como se seguissem o único caminho possível, por ser o mais luminoso. Mas Russel Square vestia-se com roupa velha e suja, t-shirt, calções e botas. Tinha cabelo comprido, de origem m...

Sem Linhas, A Lápis

É demasiado plano, o desenho. Dizem que se tenho energia, que a energia vai toda para a cabeça, para o cérebro. E o corpo ressente-se. Pois o corpo não aguenta tamanha descarga. Aí, o corpo começa a lutar com a cabeça. Os dedos não param, as pernas querem ir a sítios, o corpo quer movimento. Mas o movimento não tem... O movimento tem medo. A mão escreve entretanto porque o movimento da mão diz coisas, ao contrário do movimento das pernas que só quer ir a sítios indiscriminados e por vezes perigosos. Já fui a sítios perigosos. São como os outros sítios, só que são sítios onde os lugares têm crimes e ódio e compaixão também, dentro deles. É tudo misturado, na cidade existe de tudo. O corpo quer ir embora porque a mente está agitada, está convexa, focada no infinito, se tal for possível. É preciso dar significado. Ir com calma, deixar a mão e a mente em harmonia para que o que se escreva tenha significado.  Penso que posso escrever muito até entrar em exaustão.  As pernas també...

No Chão

Cara metade Rogo tomar-te Assim que urge o acordar rude Bovino açafrão. Encontro à parte Uma mão que muge O sangue da ferida Do corpo leão Sapo inchado De água velado Sono crispado Assassino no chão.

Não me parecia que sim

Parece que são concêntricas, aquelas circunferências. Que partem do mesmo início, ela assim queria. Que as vidas deles girassem em torno da mesma coisa comum, sem se tocarem. Um pouco obtuso da sua parte, mas acho que era isso que ela queria. Uma companhia e uma boa dose de romance na sua vida. Algo sereno e se possível eterno, como a circunferência. Eu disse-lhe, minha cara, você sonha demais. Acha que isso é... Fazível? E usei esta mesma palavra, palavra feia e comezinha como o chão velho de linóleo da cozinha cheio de bolhas de ar onde estávamos as duas. Ela não levou a mal. Ficou pensativa, disse que sim. Que era. E descolou outra vez para outra dimensão. É como caminharmos juntos, lado a lado, percebe? Seria algo paralelo a uma curvatura, sabe? A vida curvava, segundo ela, para o infinito, para Deus, para o linóleo do chão e para tudo. Alto lá, ouça lá, isso é tudo muito bonito mas quem vai tomar conta de/? Mas queria ela lá saber. E disse-me de chofre que o queria ver pelas c...

O Assombrado

Diorama descansa agora, no entanto ouve-o, solene e imediata. A Ele que ao pé lhe faz companhia e zela por ela. Ele prostra-se de dor, espera que ela se recomponha e lhe diga o que fazer. O que tomar para aplacar aquilo dentro dele, que todos os dias cresce, cresce, cresce como uma flor redonda sem caule. Diorama mais ela, a gata de colo, estranham o décor e a baixela de prata e Ele ali ao pé. Nem sabe porquê, está ali de sentinela e tem sentimentos por ela -- Faz luz – diz ele, Ela faz luz para mim como a manhã e por isso zelo por ela que jaz aqui, assim como... sei lá. Aqui para mim. Então estava escuro? – ele pensa e esgrime em sua cabeça outros argumentos para a convencer de que. De que era Ele, o Destinado. O Assombrado. O Iluminado. Por ela fazer luz ele a trouxe, que repouse que já é tarde. Às três da manhã as portas dos espíritos se abrem toda a gente sabe, que guarde energia para logo. --Estaremos alerta, não é assim Diorama? Estaremos sempre alerta? Algum há de vir, digo ...