domingo, 18 de abril de 2010

Anabase

Montesquieu de cabelos verdes e capa preta, em mistério, saiu do hospital para o jardim onde nada era como é. Viu uma paisagem de Turner. Sabia ele, que o pintor codificara nela, ondas de rádio tão precisas que diziam a Montesquieu onde e quando aquele barco esborratado se encontrava. Está agora em Anabase, em Messier 16. Montesquieu soube-o logo e ficou pensativo.
Aproximou-se das escadas em caracol para pensar melhor, que era um efeito dos edifícios sobre ele. A arquitectura destes influenciava a psique. Estruturas regulares propiciavam pensamentos racionais. Arcadas, faziam-no sonhar e imaginar coisas improváveis. Túneis, propiciavam a estados mais reclusos e Montesquieu era muito sensível ao caracol da escada da enfermaria que não era mais que um eterno retorno ao passado, a uma estadia a viver ali. Logo lhe veio Anabase ou o Pilar dos Tempos. O tempo do universo em Anabase não contava segundos, era a estação de serviço dos anjos. Eram ali, os Pilares da Criação, no próprio hospital, mesmo acima da segunda janela a contar da direita: A.N.A.B.A.S.E.
um Arcanjo Nasceu na Arcada, Berço das Alturas Sem Ele -- deus.
E teve uma visão, sempre que as tinha, seus olhos rebentavam por entre órbitas de sol intumescido pelo calor do corpo. Fugia dele próprio como fugira anos antes, da cruz que suportara por ter que viver com a sua alma de ímpio. Era sujo de ideais. Falava como um messias, portador da mensagem dos Anjos-de-Cabelo-Verde. Ele já vira um, disse-lhe que lhe apetecera fugir dali. Para onde? Para Anabase. Outra vez Anabase! Farto de ouvir o anjo, decidiu apaixonar-se por ele, há amor que acontece nos tempos de loucura, é amor que a razão impede que nasça. A roda dos dias que passam é eterna, não pára. Fecha-se um ciclo. Marés de estrelas morrem no universo para nunca mais voltarem, ouve-se um sussurro de paz ou silêncio. Nebulosas revelam-se assustadoras e trazem consigo uma calma assombrosa, mas eficaz. Disse-lhe que sim, que queria esse constrangimento, essa penumbra. Nada faz sentido e o sentido não faz nada no tempo de Anabase. Mas só a loucura faz do amor coisa racional, uma equação de corações inflamados. Mesmo que um desses corações se esteja abastecer de orações em Messier 16, na segunda janela a contar da direita: um Arcanjo nasceu nessa arcada, berço das alturas, sem a ajuda de deus. E viu o céu pela primeira vez, como devia ser visto. Montesquieu de cabelos verdes e capa preta puxou de um cigarro, e fumou-o lentamente, enquanto meditava junto à escada em caracol. Subiu-a até às estrelas, porque já era de noite, entretanto. E ficou a olhar o céu.


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